sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Recadinho

Querida menina,

sei que nunca lerás estas palavras, nem ouvirás o que te digo, mesmo que seja para teu bem.
Mas o meu coração manda-me escrever isto, como se ele se quisesse deixar ser enganado, acreditar que tu terás conhecimento do que aqui escrevo.
Porque, por muito que tu não acredites, eu gosto de ti, e se te chamo a atenção é para que tu vejas que todas as versões têm dois lados, e que não precisas de escolher nenhum deles. E como não precisas de escolher "lados", não precisas de agir de maneira diferente com quem te quer bem e te ama, e se esforça tanto para não perder o contacto contigo, e te ajudar a crescer com mente sã e olhos abertos.
Estás a crescer e o mundo continua a girar à tua volta, em volta das tuas escolhas. Dantes, porque os adultos que te acompanhavam assim o exigiam, agora porque tens os teus próprios interesses e continuas a não querer ver mais nada.
E as outras pessoas? Grandes e pequenos que gostariam de te ter mais vezes na sua vida, por mais tempo, criar mais memórias para substituir as outras que em breve se vão desvanecer, de tão pequenas que são.
Como eu gostava que um dia abrisses os olhos e admitisses  que houve falhas e que ias tentar colmatá-las.
O recado já vai longo, por isso vou terminar, mas não vou pedir desculpa por gostar de ti.
Beijinhos.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Princesinha mal-educada (2010)

Conheci, em tempos idos
uma linda princesinha
pequenina, fofinha,
com grandes olhos castanhos
onde luziam a alegria,
a amizade e a bondade.
Os reis do seu coração,
por questões que a ultrapassavam,
reinava cada um
o seu reino encantado.
O rei, maravilhado,
pelo pequeno ser
a quem dera vida
sorria-lhe e oferecia-lhe
tudo quanto podia
sem olhar a meios
para a ver feliz.
Mas a rainha,
gente vil e maléfica,
sempre zangada com o mundo
enchia os ouvidos à princesa.
Reprimentas, mentiras,
enganos e traições,
tudo ela fazia
para afastar a princesa
do seu amado rei.
Mas eis que a princesa cresce,
como crescem todas elas,
e um dia, pois então,
conhece um pretendente
talvez o rei do seu próprio reino.
Mas o amor do seu pai,
o primeiro rei do seu coração,
não é bastante
para mudar todo o mal
que a rainha lhe destilara
para o seu próprio coração,
e a avareza volta,
os ciúmes, a garganeirice,
e a própria princesa recusa
trabalhar e aprender
e só pede, pede, pede,
coisa bem triste afinal,
porque diz de boca cheia
ao seu primeiro rei:
« se não pensasses em ti
compravas tudo para mim».
E é com tristeza
que o rei a vê mudar
e nem este novo príncipe
a parece endireitar.
A pequena princesa
só sabe olhar
para o seu próprio umbigo
mas queira Deus
que a princesa abra os olhos
para ver a verdade
e perceber
que ser uma princesa
não é esgotar os outros
para se encher ela.
É perceber que quem trabalha
também merece,
com toda a certeza
mais do que os malandros
e malandras do seu reino,
todo o amor e carinho,
todo o respeito
que deveria, sem dúvida,
pautar a sua própria vida.

PS - não estava descansada enquanto não deixasse este desabafo...